sábado, 15 de novembro de 2014

O CANTO DA PATATIVA

Opinião de Valdir Appel
 
Nos velhos tempos, um jogo de futebol se resumia a 90 minutos de bola rolando. Só por acidente de percurso um juiz acrescentava algo. Tive o prazer e a honra, e principalmente a sorte, de ao longo de alguns anos dourados, ter a minha frente, postados, zagueiros que impediam a maioria dos chutes adversários. Talvez, e por isso, eu tenha sido um goleiro razoável. Corro o risco de citá-los e acabar esquecendo de alguns. Mas a primeira zaga vascaína que me protegia: Brito e Fontana, merece destaque pelo comportamento em campo nos momentos decisivos da partida. Inúmeras vezes, ouvi as palavras de ordem dos xerifes da zaga, atentos ao placar eletrônico do Maracanã, aos demais colegas: "Gente, 42 minutos, o jogo acabou". Raramente tomamos um gol de empate, no que hoje seriamos acréscimos, e muitos menos levarmos uma virada no apagar das luzes. Os minutos finais eram para garantir o placar, e todos os recursos eram usados para segurar o resultado favorável. Da cintura para baixo, dos adversários, tudo era canela. Os jogadores, a maioria, não tinham a mínima ideia do que a palavra Fair Play significava. Acho que ela sequer era conhecida nos campos tupiniquins. Jogador adversário contundido era, quando muito, carregado e jogado à beira do gramado, onde recebia uma ducha de água fria do cantil do massagista, um Gelol na canela sem proteção e um tapinha nas costas. No último sábado, o Flamengo derrotava o Sport na Arena Pernambucana. Dois a zero com o tempo prá lá de Marrakech. O palco hollywoodiano de exibição, com arquibancadas coloridas em vermelho e preto, um tapete verde sem pregas onda a bola rola sem montinhos artilheiros, que não permite erros de fundamentos de jogadores com pedigree.  É um “luxo” para o maestro na lateral demarcada. A ele cabe o empurrão com o aceno das mãos para o lado oposto da sua baliza. É lá, no campo do adversário que os seus jogadores devem reter o balão de couro, e gastar os últimos minutos da partida, os acréscimos, tocando bola, até o apito final do árbitro. Infelizmente, para isso, falta o craque, que decide, que comanda a orquestra dentro do campo. O que temos por aqui são Jogadores no estertor de suas carreiras, jogando um futebol melodioso e triste, patativas que já não marcam territórios. Por isso, o que antes parecia um resultado consolidado, não é mais. Menos mal para o torcedor, que já não abandona mais o estádio nos minutos finais e nem nos acréscimos, as constantes viradas dão a certeza de que realmente a esperança é a última que morre.
Valdir Appel, ex-goleiro do CR Vasco da Gama nos anos 60 revelado pelo Clube Esportivo Paysandu de Brusque.
 
 

Um comentário:

Holder disse...

Olá Edemar, tudo bem?
Sou teu fã desde a decada de 70 e gostaria de saber se há narrações suas daquela época ou decada de 80 pela Jovem Pan, especialmente jogos ou gols do Palmeiras disponíveis.

Seria bom demais ouvir novamente sua poderosa voz narrando um gol acompanhado da musiquinha "gol que felicidade" da Pan.

Agradeço antecipadamente qualuqer informação.

Forte abraço.

Adilson José - Salvador-BA