quinta-feira, 6 de novembro de 2014

OS NARRADORES ESPORTIVOS DO RÁDIO

A respeito dos narradores esportivos - a pedidos - estou postando novamente uma matéria publicada neste blog. Esta matéria escrevi em 2008 também para o site Caros Ouvintes. Muitas consultas foram feitas a respeito da mesma que o brilhante Antunes Severo resolveu republicar. Aproveito o gancho porque ela não perdeu sua validade, ao contrário, torna-se cada dia mais verdadeira e merece uma reflexão profunda para quem narra ou sonha em narrar futebol no rádio.
 
Marca registrada
Waldir Amaral, foi brilhante
O relógio marca…, abrem-se as cortinas começa o espetáculo, ripa na chulipa, pimba na gorduchinha, bola no barbante de ..., respeitável público, tremulando, tremulando, tremulando as bandeiras, dez é a camisa dele, indivíduo competente o Zico, passa de passagem, Placar na Suécia, um a zero, o Brasil vence. Frases famosas criadas pelos narradores brasileiros Waldir Amaral, Fiori Giglioti, Osmar Santos, Willy Gonser, Geraldo José de Almeida, Jorge Curi, Edson Leite, Doalcei Bueno de Camargo, José Italiano o garganta de aço nos últimos cinqüenta anos. Pedro Luis tinha um estilo próprio, sem bordões ao contrário de Edson leite. Pedro narrava em cima do lance. Ele foi o principal narrador brasileiro que fez seguidores em todo o país. Depois dele Fiori Giglioti, Haroldo Fernandes, Flávio Araujo, Ênio Rodriguês, Marco Antonio Matos entre outros deixaram sua marca.
Jorge Curi, o locutor padrão
do rádio brasileiro

Identificação
Elas identificavam os narradores por décadas, no rádio esportivo brasileiro. Era gostoso ouvir Waldir Amaral falar após cada gol: “tem peixe na rede do Vasco”, ou “o relógio marca”. Jorge Curi com seu vozeirão anunciando o placar do jogo “no PE (placar eletrônico) do Maraca” ou “passa de passagem”. Willy Gonser com o seu “tem bola no barbante de...”, Osmar Santos gritando “chiruliruli-chirulirulá”. Oswaldo Moreira, da Tupi do Rio soltando a voz com “respeitável público”. Fiori Giglioti quando o árbitro apitava o início da partida: “abrem-se as cortinas e começo o espetáculo”. Eram marcas registradas  desses grandes narradores. E depois surgiram as cópias que continuam proliferando no rádio esportivo brasileiro. Mas, cada um só dá o que tem.

Bordões
Osmar Santos, eu, Leônidas da Silva
 e Cláudio Carsughi, bons tempos da
Jovem Pan
Muitos profissionais contratavam publicitários, tinham colaboradores e amigos, para criar frases. Lembro de Antonio Garini, editor-chefe do Jornal da Manhã da Jovem Pan, grande incentivador de Osmar Santos, sempre tinha sugestões. César, jogador do Palmeiras e Estevan Sangirardi também colaboravam. As frases de efeito deram impulso à carreira de Osmar Santos, interrompida na noite de 22 de Dezembro de 1994. De 1973 a 1977 dividia as transmissões esportivas da Jovem Pan com o Osmar. No início da carreira, Osmar, espelhou-se em Pedro Luis, Edson Leite, Geraldo José de Almeida, Fiori Giglioti, Haroldo Fernandes, Joseval Peixoto e outros. Aos poucos foi criando seu próprio estilo. Infelizmente Osmar Santos já não pode mais ser ouvido nas narrações esportivas. Mas o Brasil recheou-se de “carbonos” de Osmar Santos; suas frases e seu estilo de narrar futebol foram copiados pelos quatro cantos do país. Aliás, não só ele; também Fiori Giglioti é xerocado por algumas dezenas de locutores brasileiros. E antes de Osmar e Fiori, o extraordinário Pedro Luis.
Edson Leite, Fiori Giglioti e Pedro Luis

Cópias
Lá por 1973 quando o Pedro Luis começou a ter problemas com a voz, aparecia Marco Antonio Matos, seu espelho, cópia fiel do grande mestre. Pedro teve outros seguidores como Mário Garcia, Wanderlei Ribeiro, Hamilton Galhano no rádio de São Paulo. Nos estados em que se ouve o futebol do Rio, José Carlos Araújo tem clones e mais clones. O rádio esportivo brasileiro sempre teve muitas cópias; não é grande o número de narradores de ponta, com estilo próprio.

 Gaúchos
Ruy Carlos Ostermann, Pedro Carneiro
Pereira e Lauro Quadros, ícones do
rádio gaúcho
No sul, o futebol da Guaíba foi reconhecido a partir da Copa de 1966 na Inglaterra. A narração esportiva brasileira pode ser analisada por regiões. Depois de sua morte em 1973, Armindo Antonio Ranzolin tomou o comando do futebol. No Rio Grande do Sul surgiram muitas cópias de Pedro Carneiro Pereira e Armindo Antonio Ranzolin. Haroldo de Souza, contratado em 1973 pela Gaúcha (hoje na Bandeirantes de Porto Alegre) inovou no rádio dos pampas misturando o estilo gaúcho com a modernidade de Osmar Santos. 

Paranaenses
Willy Gonser. o mais completo
No Paraná depois de Willy Gonser e Airton Cordeiro, surgiu Himer Lombardi que virou Lombardi Junior. Esteve conosco durante alguns meses em 1974, na Jovem Pan. Em Curitiba tornou-se o grande nome do rádio esportivo de 1975 a 1994, quando veio a falecer. Inovou utilizando frases e vinhetas da Jovem Pan.

Estilos
O estilo das transmissões dos grandes narradores paulistanos de outrora se espalharam pelo interior do estado e norte do Paraná. O carioca invadiu Brasília, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Manaus e outros estados do norte e nordeste. Um detalhe interessante; 90% dos narradores esportivos das grandes rádios de São Paulo vieram do interior ou de outros estados brasileiros para se consagrar na maior cidade da América do Sul.

Narrador
O narrador esportivo é um “vendedor de ilusões”. Cabe ao narrador esportivo descrever o que ocorre num jogo de futebol, com precisão, e, detalhes. Ao contrário dos locutores esportivos que estão mais preocupados com vinhetas, abraços, piadas, reverberações exageradas, pornografia e poesias. Sou fã dos narradores que me fazem “ver o jogo” sem estar no estádio ou na frente da tevê. Exemplos: Éder Luiz, Paulo Soares, José Silvério, Cledi de Oliveira, os que na verdade tenho ouvido mais recentemente. Que me perdoem os demais, mas, não se pode ouvir todos, e quando se gosta de um estilo de transmissão é nesse que ficamos, ou pelo menos eu fico. Narrador esportivo descreve os lances de uma partida de futebol mostrando quem está com a bola, para quem foi passada, qual a posição em que o lance ocorreu, não esquecendo do placar e tempo de jogo. Essa é a função do narrador; as dúvidas ocorridas no desfecho de um lance devem ser esclarecidas pelo repórter colocado atrás do gol ou na lateral do gramado. Ao comentarista cabe comentar o jogo. Hoje poucos descrevem o jogo; preferem interferir na seara do comentarista, dando sua opinião e esquecendo-se de narrar. Alguns pela rapidez que querem dar a transmissão engolem palavras; outros narram na base do – cruzou o zagueiro, cortou o zagueiro, defendeu o goleirão. Quem cruzou?  De onde cruzou?  Para onde cruzou? Quem cortou? Como é o nome do goleiro? Não se fala o nome dos atletas. Algumas transmissões são completamente lineares; cobrança do tiro de meta e jogada que se estende até a linha intermediária (entre meio de campo e grande área adversária) deve ser narrado com um tom mais coloquial; um chute a gol ou jogadas que se sucedem dentro das áreas devem conter a vibração que o futebol exige. Hoje em cada 10 narradores, cinco gritam aos quatro ventos “pro gooollll…. pra fora”. É uma forma de aumentar a emoção de uma jogada de ataque. Porém 95% desses lances não resultam em absolutamente nada. Pura enganação. E você ainda ouve os surrados – a bola passa raspando a trave, tirando tinta do poste – (a tevê mostra que passou dois metros do poste) ou – balão de couro – (a bola de hoje é fabricada com material sintético e balão é outra coisa), ou ainda – um escanteio de mangas curtas -. E tem aquela do – estamos no intervalo do primeiro para o segundo tempo -. O jogo de futebol tem apenas um intervalo, logo dizer que é do primeiro pro segundo tempo passa a ser pleonasmo. Ouvi ainda este ano (2014) a narração de um lance em que o locutor disse: "levantou a bola rasteirinha na área". Outras frases são comuns nos dias de hoje como "Vai cobrar o escanteio na ponta direita do campo de ataque", "soltou a jogada (ué não se joga com a bola?, "Subiu lá no alto para praticar a defesa".

Também inventei
Sinal vermelho prá você (nome do goleiro) cuidado aí porque numa dessas a casa pode cair, chutou a orelha da bola, a Pan...norâmica do jogo, toda galera está vibrando nessa (nome do goleiro) e agora vai buscar no fundo do gol porque é de gols que o povo gosta, esse foi um chutamento (nem chute nem cruzamento), foram bordões que eu criei ao logo dos anos nas minhas narrações esportivas na Jovem Pan, Tupi, B-2 e Record. Mas, em primeiro lugar nas minhas narrações está a narração do jogo com vibração e emoção, detalhando sempre quem está com a bola, onde está localizada a jogada e repetindo a cada momento o tempo e o placar do jogo.

Um pedido
Esta matéria a respeito dos narradores esportivos do rádio não é para ensinar a ninguém o “pai nosso”, mas, gostaria que os jovens, os que estão ingressando nesta profissão levem isso como uma colaboração de quem também cometeu muitos erros. Escrevo para que os futuros narradores sejam realmente narradores, que o rádio seja sério, moderno, informativo, prestador de serviço, feito com muito amor, sem palavrões e pornografia. Quanto ao rádio, precisa resgatar qualidade e dignidade, que muitos jogaram na lata de lixo. Chega de baixaria, chega de terceirização, chega de incompetência. O rádio precisa dar um basta a tudo isso. A falta de qualidade do rádio de hoje contribui decisivamente para a queda de sua audiência e por extensão diminuição das verbas publicitárias. Dêem qualidade ao rádio e tenham a certeza que a audiência voltará a crescer e as verbas publicitárias aparecerão naturalmente.

6 comentários:

Mario Dourado disse...

Muito bom artigo.

Tenho algumas antigas gravações de Oswaldo Moreira (incluindo o "respeitável público"), Doalcey Camrago e Celso Garcia, creio que interessa ao autor e leitores deste blog. Estão em: www.dourado.eti.br/meustextos


Ricardo Cau disse...

Edemar,

Muito bom o artigo, aliás o blog é muito bom.
Sou seu fã a muito tempo, ouvia a rádio Jovem Pan e sempre gostei das suas narrações e do José Silvério, mas pra mim o melhor do rádio foi você.
Um jogo ficou marcado para mim, sua narração.
São Paulo x Palmeiras numa tarde de Sábado no Pacaembu com muita chuva, o jogo terminou 4 a 4, e a narração do gol do Pita no Leão.
Caso você tenha essa narração, do jogo ou do gol do Pita, gostaria que me enviasse.
Meu e-mail: ricardocau@gmail.com

Grande abraço,

Ricardo Cau

Ricardo Cau disse...

Edemar,

Muito bom o artigo, aliás o blog é muito bom.
Sou seu fã a muito tempo, ouvia a rádio Jovem Pan e sempre gostei das suas narrações e do José Silvério, mas pra mim o melhor do rádio foi você.
Um jogo ficou marcado para mim, sua narração.
São Paulo x Palmeiras numa tarde de Sábado no Pacaembu com muita chuva, o jogo terminou 4 a 4, e a narração do gol do Pita no Leão.
Caso você tenha essa narração, do jogo ou do gol do Pita, gostaria que me enviasse.
Meu e-mail: ricardocau@gmail.com

Grande abraço,

Ricardo Cau

Edson Cury disse...

Legal ter encontrado seu blog com uma matéria tão interessante falando dos narrados esportivos. Parabéns Edmar, admiro seu trabalho.
Edson Cury

JASouza. disse...

Se me permite um reparo, a partir de l958, a Guaíba passou a ser tida como a Rádio de Todas as Copas, graças aos esforços do Engº Homero Simon, secundado por Flávio Alcaraz Gomes e Mendes Ribeiro, quando montaram um transmissor na Suécia, objetivando alcançar a qualidade do som local. E até hoje, ainda ecoa em nossos ouvidos o bordão "Deus não joga, mas fiscaliza", que se tornou marca registrada do saudoso Mendes Ribeiro.

Adalberto Day disse...

Edemar, só você para nos brindar com nomes de tantas feras. Mas falta incluir você, e este eu faço meu amigo "Alemão" da Itoupava Norte em Blumenau. Todos locutores formidáveis, mas quero aqui citar o Valdir Amaral que dizi: "Estão sendo desfraldadas as bandeiras do Vasco da Gama", Jorge Cury fabuloso, Osmar dos Santos, Fiori Gillioti "fecham-se as cortinas e termina mais um espetáculo"
Parabéns
Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau.